A expressão "The End", que significa "O Fim" na língua portuguesa, é utilizada até os dias de hoje nas produções cinematográficas. Apesar de algumas coisas na vida serem boas, podemos afirmar veementemente que nem tudo aquilo que possui um fim ou término pode ser considerado uma vantagem ou até mesmo um desperdício. Por exemplo, quando estamos passando por alguma situação ruim, certamente o nosso maior desejo é de que tal situação chegue a um fim. Por outro lado, quando esstamos vivenciando uma situação consideravelmente favorável ou agradável para nós o nosso desejo de que tal situação ou momento presente em nossas vidas dure para sempre. Como dizia certo autor: "Todos buscam as reticências, por que o ponto final é um fato inaceitável". E o que esta afirmação tem a ver conosco? Aprendemos por meio desta frase que tudo tem o seu tempo e sua hora, e não adianta tentarmos adiar ou retroceder os ponteiros do relógio, pois o tempo é um fenômeno incontrolável. Passamos a vida inteira fazendo planos, e no final das contas, a única coisa que levamos para o túmulo são as nossas roupas, que, diga-se de passagem, nem somos que escolhemos. No entanto, voltando à questão central: Porque temos medo do fim? Façamos uma retrospectiva, e voltemos para o passado, especificamente nos anos iniciais da escola na qual estudamos. Através dos professores, e também da literatura infantil, fomos apresentados a estórias, que na sua esmagadora maioria, possuíam um final feliz. A maioria dos escritores, juntamente com as editoras, estão costumados a publicar narrativas que tenham o famoso e conhecido final "E eles viveram felizes para sempre!".
De certo modo, eu concordo com este formato de publicação, pois narrar uma estória com um desfecho melancólico seria um fato desagrdável para a criança. O que acontece é que a criança, em seus primeiros anos de vida, alimenta um universo meramente fantasioso. Seria um choque de realidade apresentar o lado desagradável da vida, tal como, a inevitabilidade da morte, as intrigas e indiferenças pessoais, o desejo de vingança, as traições e quaisquer outras coisas que monstrem o lado negativo da humanidade. No entanto, saiba que na Idade Média era tudo muito diferente. Para as crianças daquela época, era totalmente natural presenciar execuções, tais como, morte por apedrejamento, decapitação, enforcamento, morte na fogeira e outros modelos de execução. As crianças já estavam acostumadas a observar tais atrocidades, e dentro desta perspectiva é necessário nos atentarmos à seguinte questão: Uma literatura com elementos nocivos e um final desconcertante iriam traumatizar crianças que já estavam acostumadas a verem coisas muito piores?
Se você ler os contos originais, tais como Chapeuzinho Vermelho, A Pequena Sereia, A Bela e a Fera, Aladin e a Lâmpada Mágica, você certamente irá se deparar com características peculiares da natureza sombria, de modo que você sem sombra de dúvida iria perguntar a si mesmo(a): Isso realmente foi escrito dessa maneira? Os escritores da Idade Média não estavam comprometidos somente com a estilística ou até mesmo com a estética de suas produções literárias. Eles queriam transmitir lições que, para aquela época eram duras demais para serem aceitas, embora naquele tempo já houvessem coisas assustadoramente caóticas. Creio que também tenho propriedade para falar do assunto, por que também sou escritor e jamais me perdoaria pelo fato de escrever um final melancólico em qualquer livro infanto-juvenil que escrevi. Com o surgimento da falsa "Teologia da Prosperidade", as pessoas são ensinadas de que tudo deve acontecer em suas vidas de forma positiva e de que também a derrota é um fato inaceitável. Tal tipo de pensamento tem produzido pessoas mimadas e com um comportamento meramente infantilizado, pois o próprio Cristo disse através de seus ensinamentos: "No mundo tereis aflições".
Ninguém sabe mais do que Cristo. Ninguém melhor para falar sobre a inevitabilidade das aflições na vida humana. Agora querem inventar um mundo no qual as pessoas tenham a sensação de prazer, mesmo que estejam quebradas ou fudidas por dentro. O País das Maravilhas não passa de uma criação decorrente da natureza humana. Não existe essa coisa de "Felizes para sempre", a menos que estejamos falando da eternidade com Deus. Como disse o bruxo da literatura brasiliera (Machado de Assis): "A Vida é uma Ópera". Temos medo do final por que fomos condicionados a acreditar que tudo na vida tem continuidade. Como posso exigir que o amor seja eterno enquanto dure, sendo que eu, assim como a maioria das pessoas, mudo a cada dia que se passa? Como posso ter a presunção de que acordarei vivo e com saúde? Como disse David Hume: "O fato de que o Sol nasce todos os dias não nos garante que ele nascerá no dia de amanhã". Temos medo do fim porque almejamos a eternidade. Temos medo do fim por que não aceitamos a derrota. Temos medo do fim por que queremos que as nossas pegadas permaneçam na areia para sempre. Temos medo do fim por que zelamos pela nossa existência.
0 Comentários